quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

MANJAR DE DEUSES

Nesta época de tolerância, reflexão e abundância
em que devemos ser solidários e irmãos
faz do meu corpo a tua boa mesa de consoada
saboreia sem maneiras e de boca cheia
todo o meu recheio, iguaria deveras, especial
que te lapidará o paladar libidinoso, franco, ansioso.

Abre a mesa toda, com talento, jeitinho e destreza
que sei possuíres, porque tens tantas artes
e enfeita-a com uma tolha encarnada e arrendada
que pareça uma colcha de seda amarrotada
pelos exageros e fomes dos nossos corpos suados
que somente se desejam unir e consumir, petrificados.

Começaremos pelos aperitivos, habituais, demorados
pois só à meia noite se iniciará a nossa festa
como mandam a tradição, o desejo e a inquietação
que não nos dará tréguas, nem mínimas oportunidades
de não nos aproveitarmos ao máximo, um do outro
numa deglutição transcendental, incontida e transversal.

Inspecionarás a toalha e tudo o que lá está, esfaimado
cheirarás, tocarás, afagarás todos os manjares
onde com a tua fé, gigante, fervorosa e miraculosa
te entregarás, na totalidade e por inteiro
fazendo do meu corpo um bordel real de paladares
não sabendo tu por onde começar, ao olhar tanta beleza.

Deu-se início à cerimónia no meu corpo, tão profano
de uma maneira aparatosa e maravilhosa
fazendo nós inveja às divindades, ou aos mortais
mas que fazer, se nós somos não iguais?
Ouviram-se silêncios e sussurros, que na consoada
não são usuais, pois todos estão de alma pura e lavada.

Deslizaste o olhar pelos rijos pináculos, deslumbrado
deliciando-te na minha pele moreninha
chupando frutas cristalizadas, apetitosas, gostosas
de um modo tão desmedido, louco, compulsivo
como se fosse uma mulher vulgaríssima, que utilizas
onde te alivias e sacias, sem nexo, e somente, por sexo.

E a vida brota, faz-se semente, que em mim espalhas
ao som dos sinos travessos que estão em nós
pegando as tuas mãos já trémulas, as acendalhas
que irão abrir as minhas prendas, mimos
ao calcorreares, lentamente, o meu corpo, alvoroço
quando me romperes, já sem paciência, como um menino.

Eu, na mesa, toda estendida, à mercê dele e à deriva
vou receber os seus gestos, ficando cativa
na robustez dos seus braços, fortes e abobadados.
Estou assustada, sem pinga de sangue e aterrorizada
e no Natal que tanto frio faz. Deus, afasta o mal
e leva-me para um lugar, onde esteja acolhida e protegida.

Vejam só do que aquela terrível cabecinha se lembrou!
Barrou-me o corpo todo, com mel e rosmaninho
aos quais juntou frutos secos, chantilly e fatias doces
com creme de chocolate polvilhado com coco
que deram à minha anatomia um aspeto de iguaria
só para ele, como nos contos de fadas. O homem é louco!

Nesta figura, eu nada podia fazer. Ai, eu vou endoidecer.
Já sei. Vou fazer-me de morta. Que importa?
Assim, talvez ele perca o apetite que tem por mim
pois como não tenho reação, nem excitação
talvez ele vá espreitar, curioso, a chaminé da cozinha
à espera que o Pai Natal lhe tenha lá deixado uma prendinha.

Nada! Continua a esmiuçar-me, a tocar-me, a soltar ais
e nem dá pelo tempo passar, neste desatino
enquanto eu, barrada, melhor que doces conventuais
nem posso falar, pois está-me sempre a beijar
a acariciar-me o cabelo, a abraçar-me, a lambuzar-me
e eu para aqui fico como escrava, sem me conseguir libertar.

O que é isto? Ouço movimentação e agitação na cozinha
dizendo-me o meu coração, que ele irá até lá
para ver o que se está a passar. E foi! Tinha de se dar!
É neste espaço de tempo, que eu, pé ante pé, devagarinho
me desloco, em surdina, à casa de banho principal
trancando a porta, não me olhando, aterrorizada de espanto.

Comecei a rezar para me conseguir ver, olhar no espelho
pois tinha muita curiosidade, pranto e terror
e quando, repentinamente, vi o meu rosto e corpo
desatei numa choradeira, atirando-me para a banheira
que ficou alarmada, sarapantada e muito admirada
com o banho tão pormenorizado, total e mais que demorado.

Que alívio eu senti! Assim sim. Isto é leveza e limpeza
que me faz cheirar a gente, finalmente.
Quando ele der por mim, já estarei bem longe daqui.
Vesti-me de vermelho para condizer com a época festiva
embrulhei-me glamorosa numa capa quentinha
que me devolveu a minha graciosidade, beleza, sensualidade.

Porém, quando eu tentava abrir a porta, bem mansinha
senti umas mãos poderosas e inclementes
a agarrarem-me, a prenderem-me, a centrifugarem-me.
Fiquei apavorada, despedaçada, desnorteada
com o que estava a suceder, mas era lógico prever
porque com aquele homem, eu já sabia, que não brincaria
e muito menos iludir, enganar, mentir, falsear e fugir
pois teria a resposta apropriada, na hora certa, e sem hesitar.

Fitou-me, pegando no meu rosto com força e brutalidade
forçando a minha tenra boca, beijando-me
de tal modo, que perdi a consciência e a resistência
que eu pensava ter em doses industriais
mas na hora exata, no momento e naquela atrapalhação
fui marioneta desengonçada e descontrolada, sobretudo nada.

Depois, despiu-me toda, de forma incrível e conhecedora
pedindo-me que o despisse e que o sentisse
não sabendo como fazer, onde começar, mas tinha de ser.
Cumpri religiosamente a sua vontade e o seu pedido
embora com timidez e com pudor, mas com amor, confesso
que esqueci o que poderia suceder, após este ato nada pensado.

Pegou-me ao colo, sorrindo, pois sabia que queria carinho
levando-me para o quarto dele, que era fatal
ofertando-me à cama com gestos melosos e amorosos
cobrindo o meu corpo com o seu, compactamente
e mais vos irei contar mais, pois vocês já estarão a salivar
vivendo no mundo virtual, ao lerem, aquilo que eu vivi no real.


CÉU

domingo, 13 de dezembro de 2015

VENENO

Perco-me nas palavras quando escrevo
perder-me-ia, de qualquer maneira.
Se pensarmos bem
tudo pode ser perda
e calar, não desabafar, é muito mais.
Escrevo, porque sinto falta e preciso
e escrever é uma dependência, uma droga
da qual não me abstenho
sem a qual não posso passar
e é nela que sobrevivo, existo e que vivo.

É o meu veneno fundamental e essencial
composto por alentos e desalentos
enfim, sentimentos
que vou buscar aos guetos da vida
retendo-os na imaginação saturada
para os deixar depois escorrer pelos dedos
já sem segredos. Não quero o silêncio.
Que o meu coração jamais se cale
e aquilo que não me atrevo a afirmar
seja ele que o diga, se pronuncie e que fale.

Peço-lhe que o faça de forma precisa e clara
sem rodeios, sem ambiguidades
e pode até melindrar
não importa. Quero só a verdade
a frontalidade, que sei não ter perdido
a clarividência da minha voz
o comportamento do meu olhar
o porte dos meus sentidos
e sobretudo que as suas palavras
sejam rio desabrido
que com alegria corre para a foz
tendo a sensação plena do dever cumprido.


CÉU

sábado, 28 de novembro de 2015

SENTENÇA LIDA

 Vem, querido, sem hesitares, e caminha até mim
percorrendo a passadeira ávida e lenta
com passos desatentos, decorados e sedentos
deixando-te acariciar por ela, sem pensares 
enquanto o seu veludo tudo fará para nos entrelaçar.
Estou cá em cima, no alto, no tal sótão sem asfalto
em calma aparente, que bem represento
no papel de mulher desprezada e mal tratada
tal como Cinderela formosa, no anonimato
à espera do seu Príncipe encantado, tão esperançada!

A cobrir-me o corpo desesperançado, imaculado e nu
um rubro manto de cetim dócil, como tu
embebido em aromas e elixires de mim e de ti
que nos prolongarão as capacidades 
com mãos celestiais, doando-nos a eternidade.
Nos cabelos escuros, lustrosos, pus flores brancas
nos olhos, uma venda de seda negra, quente
a condizer com os sapatos alarmados e espantados
onde repousavam os meus pés, abrigados
que lembravam o meu lado irracional, de mulher fatal.

Caminhando e deslizando de forma branda, que espanta
chegaste ao cenário desejado e combinado
retiraste-me o manto com carinho e devagarinho
que, talvez, tivesse pertencido a uma deusa
e debruçaste-te sobre o meu corpo, já em rebelião.
É nele que te vais eclipsar, aliviar, desenfreado
observando-o, mais uma vez, com o olhar transtornado
aliançando os teus dedos nos meus cabelos
colocando-te de joelhos em prostração e veneração
afagando-me depois o corpo inteiro, louco, já em ebulição.

E entraste desmandado nele, sem me pedires permissão
ouvindo-se os ecos das emoções, sensações
indicando que a nossa peça estava quase a começar
e os nossos corpos agitaram-se, em preparação
esquecendo tu, dicas de encenação, tal era a convulsão!
O teu olhar aberto, terno, entregou-se ao meu 
que cedeu, sem quês nem porquês, inteirinho ao teu
enquanto me lambias o pescoço, com consolo
de tal maneira, que me puseste a carótida, a pular 
numa algazarra, aos saltos, ai quem a conseguia agarrar!

Para com isso, querido! Já não aguento tantos arrepios
que me excitam, eriçam da cabeça aos pés
e por mais impávida que me mostre, sou o oposto
sou vulcão que dorme, e abrupto explode no teu corpo
jorrando lava, tórrida, desalmada, descontrolada.
Esta é a minha deixa, que como podes ver, não é teatro
mas a representação dos afetos, sem orientações
onde pratico o voluntariado, consciente, sem questionar
mas agora sou eu quem te vai desconcentrar
desejando eu ver a tua atuação, para depois tirar ilações.

Palavras leva-as o vento. Quero apreciar o teu desempenho
nos sentimentos, para te avaliar com muito rigor
visto que, em Paixões da Alma, sou Mestra, Doutorada
exigindo-te apenas verdades. Nada me escapa.
Se observar artificialismos, reprovar-te-ei, sem hesitar
não te permitindo transitar para a vida
pois foste adulteroso, mentiroso, ao não respeitares o Amor.


CÉU

sábado, 17 de outubro de 2015

VEM CÁ, AMOR!

Vem cá, Amor! Vamos conversar, concordar e discordar!
Sabias que a paixão é o conteúdo essencial
de qualquer raça, credo e coração sem condição?
Paixão é o que enaltece e guia os meus versos
junta a alma e o corpo, a vulva e o pénis, naturalmente
e ninguém ousará dizer que será breve, imatura, de ocasião.

Só o dirá quem nunca sentiu o peito, o físico a alterar-se
o ecoar dos suspiros e gemidos, vivos, sentidos
de um orgasmo normal, não pensado nem estudado
quando o meu corpo diluído no teu se faz corpo
regressando à teoria das espécies e à lógica dos seres
matéria em que não estamos elucidados, nem interessados.

É um que, em simetria e milimetricamente, se faz em dois
são dois, que inteligentemente se fazem em um 
em forma de doação, entrega e penetração na cama 
na longitude onde termina o quarto, aparato 
onde a nossa força, a vontade e ilhargas
nos conduzem a este "assento etéreo" inigualável
ao delicioso toque das cítaras do clítoris, tão esquecido
onde tudo se transfigura, como se de fenómeno se tratasse.

É nesse pequenino órgão, e no tatear íntimo e consentido
vulcão, sismo, réplicas, onde tudo se concentra
que o estame em riste, já descontrolado, não resiste
rompendo sóis reluzentes por desbravar e virgens luares
que de tão brilhantes, os não suportaríamos
mas banhada, inundada de luz, a cópula segue, prossegue
e nunca  para, espraiando-se e alastrando, de tal modo
que além de mim, de ti, de nós e até da própria vida
ela torna-se alimento quando sexo e amor estão acontecendo.

E é nesta "dor que desatina sem doer", neste gozo do sofrer
que os vocábulos perdem o tom e até o som
menos que isso, murmúrios impercetíveis, sussurros
onde num só espasmo, atinge-se o orgasmo
dando-se nesse exato instante, o alívio do sentimento
esquecendo ambos o espaço e o tempo, em total alheamento.

Lembras-te, ainda, quantas vezes  morremos um no outro?
Sempre primeiramente tu, eu depois, sem fingir
temperando a humidade subterrânea da minha vagina
nessa morte mais leve que o sono, nesse confluir
em que os sentidos estão parados e bem aconchegados
instalando-se, finalmente, a nossa paz e a dos anjos
que estenderam os nossos corpos na cama, petrificados
estátuas de pedra rija e mel, encharcadas em suor
observando e pensando, em como um mortal
se pode transformar num deus louvor, e tudo isto por amor.

Vem cá, Amor! Depois de tudo o que entre nós aconteceu
julgas ser possível mudar ou desejar outro corpo? 
Não consegues dizer nada, mas nem precisas responder
pois já sabia que te tinha na mão e que eras meu.
Não vamos cogitar, saber as razões e tirar conclusões
que estão visíveis, estampadas nos nossos rostos
tão diferentes, mas tão enamorados, irremediavelmente
que temos algo indescritível para executar, como recomeçar.


CÉU

terça-feira, 1 de setembro de 2015

ESTADO DE GRAÇA

Imagina o cenário após uma noite de temporal forte
arrasadora, sem dó nem piedade, esmagadora.
Depois, de repente, o céu abre-se em azuis suaves
tremendamente incríveis, doces, aprazíveis
e os raios solares reaparecem para abrir sorrisos
que iluminam, que dão vida a cantos, becos e recantos.

O sol beija, e sem que se espere, prantos e soluços
atraindo o canto dos pássaros, sem guarida
que regressam felizes para o espaço esfaimado 
mais que a vontade dos nossos braços
como que a reverenciar a presença dos deuses
que passeiam imensamente à vontade pela minha casa.

É esse lindo esplendor de vida, essa  essência de ti
essa imensidão toda, que só tu me entregas
quando voltas para mim, dizendo só o meu nome
que me faz piamente acreditar nas miragens
no murmúrio das nascentes, no canto dos cisnes
no som da água dos regatos, nas brisas
no fim da fome e das guerras e nas pazes no mundo.

Não preciso de mais nada. Estou em estado  de graça.


CÉU

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

FEITIÇARIA

Tenho de analisar bem ou procurar apoio psicológico
para esta minha atuação, este agir sem medo
embora alguns dos meus atos mostrem fraqueza
que só eu dou conta e sinto com clareza
sobretudo quando me enlaças, beijas e abraças
ficando em labaredas, frenética, já acesa
que é seguramente, pois, algo de feitiçaria ou bruxaria.
 
E tu és tão destrambelhado, indecoroso e descarado
que, a altas horas, em que já não sei nada
ligas-me com voz rouca, deixando-me toda louca
sabendo eu, que não existe alternativa 
que não seja entregar-me às tuas endiabradas mãos
assim bem exposta, bulindo, esperando a resposta
que não tarda e não falha, tu homem, que me enfeitiças.
 
Amanhã, mais que certo, irá acontecer tudo, outra vez
numa viagem, que pode terminar, algures
no chão, na mesa da cozinha, ou talvez no colchão
pois parece que fizeste magia, usaste bruxaria
e quando amamos demasiado, o juízo é eliminado 
esquecendo as opiniões e as contradições
colorindo a realidade com pinceis feitos de verdade
e enquanto ninguém dá por isso, nem desconfia
fazemos amor, seja lá onde e como for, e que nos alivia.

É sempre assim, pois foste pensado, criado para mim
de nada serve refletir e também questionar
porque ambos não queremos quaisquer explicações
apenas pretendemos fazer morada um no outro
aproveitando tu logo para seres proprietário do meu corpo.

Ah, mas eu vou mostrar-te, vingar-me e desforrar-me
conduzindo-te, arrastando-te, embeiçando-te
para a apreciação de uma dança sensual e oriental
que irei executar só para ti, com performance exclusiva
(agora só para vocês, meus queridos leitores, ai que pavor!)
 mas estou com medo, que me devores e não saia daqui viva.


CÉU 


sexta-feira, 10 de julho de 2015

NOITE DE AMOR

Quis e preparei uma noite de amor para nós dois
num lugar invulgar, mas ousado e requintado.
Tudo se irá passar numa tenda de seda
com tapetes persas e almofadas indianas,
acariciando e preparando o chão
Mimos-de-Vénus espalhados, estrategas
pela minha doce e experiente mão
e velas do oriente, que aromatizarão o ambiente.
 
Comprei umas peças íntimas, de renda preta
semitransparente, fina e envolvente
para ficar um bocado de mau caminho
de todo leoa, que não perdoa
um misto de gata caseira, já domesticada
com fera de primeira, não receies
inquieta, ansiosa, completamente faminta
para te conduzir ao nosso céu
que ainda olhas, desconfiando já do evento
e amaldiçoando o lento tempo.

Na tenda há de tudo. Iguarias e cocktails
preparados bem em segredo
frutas orientais e perfumes exóticos
fragrâncias bizarras e sedas caras
fazendo froufrou, deslizando e ensaiando
para abafar os nossos sons.
Comprei uma cobertura de morango,
com mel e chantilly, vê tu bem
para barrar, de alto a baixo, o meu corpo
que já está todo em alvoroço
e que só de imaginar
está aos saltos e de todo descontrolado.

Tomei banho de leite misturado com coco
tâmaras e ervas aromáticas 
a que juntei pétalas de rosas multicolores
de deslumbrantes odores
açúcar, algum sumo de limão
para branquear e suavizar a minha pele
flores, lindas e campestres
que fui arrebanhando e apanhando por aí
afrodisíacos infalíveis, naturais,
que nos alindarão e aguçarão aos sentidos
fazendo desta noite uma doce glória
e onde o meu ventre fará História.

Meu querido amor, tenho de informar-te
de que está tudo no ponto e pronto
Je t' aime, moi non plus, sim
e portanto está mais que dado o mote
faltando só a investida, o bote.
Entretanto, e para me enquadrar e dar 
folheio e enleio-me no kama Sutra
para fazermos algo diferente
para provocar e inovar a nossa mente
que precisa de ser espevitada
desempoeirada, excitada e muito rodada.

Enquanto estou à tua espera, frenesim
que parece não ter mesmo fim
vou-me lembrando dos teus lábios 
polpa, que fazem crescer água na boca
ah, que coisa tão boa e pouca
do teu corpo desempenado, alto
quente, firme, imponente
fazendo-me sem avisar e sem me olhar
propostas tão indecorosas
sabendo mexer comigo e roubar-me o juízo.

Já tenho pensado, que fazes de propósito
conseguindo, de forma amena
fazer entrar em atividade o meu vulcão
mas nem imaginas, nem sabes 
nem um pouco de tudo o que sinto
nem tens a noção dos ímpetos calados
desta agitação e paixão. 
Estou, verdadeiramente arrebatada
 por ti e pelo teu amor
e está a ser difícil não dar-me, controlar-me.

O que a minha vontade quer é dizer sim
mil vezes, às tuas solicitações
que, de tantas vezes, ditas e reditas 
até já lhes perdi a conta 
e acredita que não é fita, nem fácil
manter esta postura
de mulher pouquíssimo interessada
segura e bem comportada
porque tudo em mim clama vontade
ternura, proximidade, cama
e o pior de tudo, é que convivo há anos
com este enorme drama.

Pelo exposto, e querendo tirar a máscara
acabando com esta farsa
preparei, fazendo-te surpresa, esta noite
que desejo bem inesquecível
que saiba seduzir-te como mulher e cortesã
deixando-te para sempre a mim ligado
meu, todo meu, vinculado.
Silêncio! Ele acabou de chegar
e está a ficar maravilhado e extasiado.
Então, vou descer o pano, pois o mundo irá
a partir de agora, começar.


CÉU

sábado, 27 de junho de 2015

CÉUS

Amor, tu és um mundo com muitos mundos por dentro
e nós temos muito e tanto para dizer um ao outro!
Vem! Vem esta noite, somente esta noite, suplico-te
para fazermos perto e de perto, juntos, a vida toda.
Seremos beijos, um beijo que se quer e que demora
seremos alimento um do outro, e logo, tudo se devora
e por isso mesmo, vamos fazer o que ainda não foi feito
porque amanhã, pressinto, talvez já seja tarde demais.

Lanço-me das intermináveis falésias do nosso desejo
para a imensidão e sofreguidão das nossas bocas
e, consciente, afundo-me nas ondas da tua língua
que implacável e exasperada, espera já a minha.
É na tua pele, que a minha se acende e se revigora
escutando tudo o que a tua alma tem para lhe contar
ainda a dormir, mas em poucas palavras se diz tanto
pois nos teus hábeis sentidos, há tudo e mais um mundo.

Amor, não dormimos nada, mesmo nada, a noite passada
porque ficámos os dois embevecidos e tão abraçados
contando aqueles pontinhos brancos, todos, as estrelas
que desabrochavam e cintilavam no meu e no teu olhar.
Inexplicavelmente, espalharam-se pela nossa cama
sem que déssemos por isso, entrega mútua e tamanha
mas agora que o sol já está nascendo e espreitando
vamos aninharmo-nos muito bem um ao outro, e dormir.

Mesmo a dormir, enceta-me, percorre-me e penetra-me
colhendo todos os desejos e anseios, que plantaste
sugando-me a boca, e até mesmo a alma, se quiseres
acalmando, assim, o desatino, que provocas em mim. 
Deixa a volúpia, o frémito e mais a ternura assistirem
ao empenho e desempenho da tua insaciável libido
atracada ao meu corpo pulsante, alvoroçado de amante
enlaçada na minha língua, de rastos, mas bem explorada.

Vem! Cobre-me a pele toda, todinha, sem deixar nadinha
com o teu manto espesso, nos lençóis brancos, peço-te
acrescentando-lhe charcos de saliva para entregar vida
ao oceano bravo que eu sou, e tira-me o fôlego de vez.
Depois, e quando eu acordar, e sem que tu dês por nada
vou colar com muitos beijos, só com os meus beijos
estritamente pensados, concebidos e só a ti destinados
os pontos brancos estelares, os do céu, no céu da tua boca.


CÉU


quarta-feira, 10 de junho de 2015

CADEIRA DE BALOIÇO

Estou sentada e toda desarrumada na minha cadeira de baloiço
matreira, coçada, confortável, ousada, sabichona, segredeira
que já está acostumada às minhas posições desconchavadas
e por isso, já nem se queixa, e nem tuge nem muge, coitada!
É confidente, minha cúmplice, amiga do peito, espaço devasso
onde não tenho posturas alinhavadas, ensaiadas e costuradas
que a sociedade depravada resolveu impor, em forma de fachada
à consciência, mas a minha, há muito, que estava sã e purificada. 

É nela que viajo por antros profanos, transgressores e estranhos
que só eu sei onde os procurar e os achar, e neles me enlear
como uma serpente domesticada, que faz habilidades por nada
apenas perscruta, obedece, executa, sem tão pouco questionar.
É na minha astuta cadeira que me dilato, alimento e me abro
como e quando eu muito bem quiser, e com quem me apetecer
porque ela engaveta segredos, bem melhor que um ser racional
e é deveras superior, asseguro-vos, a qualquer cama convencional.

Por isso, só nela me espreguiço, me enrosco, desenrosco e me dou
quando me pretendo espraiar, libertar, endiabrar, soltar e aliviar
e aquela doce tarada, ainda me atiça, quando me diz, descarada
para eu me escancarar, me divertir, me mostrar e ainda sorrir.
Na opinião dela, eu tenho tudo a desfrutar, a usufruir e a ganhar
na mais obscena provocação, libertinagem e péssima formação
que jamais me foi incutida, falada, pensada, aprendida e utilizada
não fazendo parte, juro-vos, do meu curriculum vitae e educação.

Hoje, vou pôr um baby-doll de cetim escorregadio, que impressione
burguês, de alças safadas, à mercê e bem à vontade do freguês
de pezinho ao leu e cabelo emproado com um acessório provisório
que é verbo de encher, pois já está todo torto, lasso, quase solto.
Sobre a minha pele, ai que desavergonhada, não tenho nada, nada
porque sou liberdade, natureza sem espartilho e toda, toda vontade
que se vê no cruzar e descruzar de pernas, melhor que Sharon Stone
numa elegância total, irreverência voraz, atraente e substância fatal.

Felizmente, e por opção, vivo sozinha, e a casa é totalmente minha
nela faço o que me apetece, o que maquino e que me entontece
com gemidos e gritos sortidos, filhos da minha essência adjacente
que já está habituadíssima a estas maluquices inconsequentes.
Lendo-me, gosto de ser felina e libertina, e de proceder assim
sem nada nem ninguém me repreender, me rotular e me criticar
mas também me dá prazer amuar, fazer beicinho e choramingar
para que me desejem, como doce aprazível, conventual e irresistível.

Apesar deste meu comportamento raro, vejam só o descaramento
que me chegou aos ouvidos, já surdos, mudos e empedernidos
para aquilo que os outros possam achar, observar e classificar
porque eu sei muito bem quem sou, o que faço e o que valho.
Então, não é que o meu amor, afirmou, gritou a plenos pulmões
que gostaria, adoraria que eu fizesse no corpo dele, sem hesitações
tudo aquilo que executo, desempoeirada, insubmissa e desvairada
na minha cadeira de baloiço, mas penso que ele não tem arcaboiço.

Bem, mas mesmo assim, vou experimentar, nem que seja a brincar
para perceber, avaliar e acreditar no sentimento, que o devora
e que ele diz ter por mim, e do qual tenho dúvidas, mil, sem fim
para que toda a verdade seja posta à prova, sem qualquer demora.
Esta noite, vou convidá-lo para vir a minha casa, só para tagarelar
e depois iniciarei a minha atuação desenfreada, mas com elevação
para que eu veja as reações dele, as atitudes, os gestos, as emoções
obtendo eu, deste jeito, uma radiografia sensitiva, de todo conclusiva. 

Ouvem-se as pancadas de Molière, ou seja, as do meu tímido coração
começando o meu corpo a insinuar-se, a aconchegar-se e a dar-se
numa volúpia exacerbada, lavada, num êxtase sem transgressão
que lhe mostrava quem eu era, o que fazia e o que por ele sentia.
Mas o que é isto, sinto-me a desfalecer nos braços dele, a morrer
sem hipótese de dizer amo-te, e nem que fosse a última palavra
que eu proferisse, antes de partir para o implacável fogo do inferno
mas um beijo dele, quente e longo, devolveu-me à vida, para sempre.


CÉU

domingo, 31 de maio de 2015

UNIÃO DE FACTO

Aproximei-me dele, fitando-o de forma apelativa
enleando-me melhor, que serpente oriental
mostrando-me e exibindo-me
que o espetáculo era eu que o fazia,
e como muito bem queria.
Semicerrei os olhos, descolei os lábios,
carnudos, rubros e quentes
e com o indicador, convidei-o, provocantemente.

Comecei a trepar, felinamente e empenhada
balbuciando sílabas e sons,
pensados, engendrados e propositados
que se faziam ouvir em ecos
enquanto os meus cabelos sacudiam os ares
num ondular luxuriante e sensual
ao qual o corpo dele não resistiu, e incontido, reagiu.

Ponto de ordem à mesa, disse: isto é o aperitivo!
Seguramente já não ouviu a minha frase
e tanto assim, que se atirou a mim
rápido, de uma assentada
retirando-me as duas peças, íntimas
que estraçalhou à dentada
como um animal que mata para sobreviver
num desatino tresloucado, febril e todo esfaimado.

Fiquei, por momentos, amedrontada, gelada
mas, de imediato, pus-me em ação
desenvencilhando-me, subtil, do varão
mostrando-lhe que sou mulher
inteligente e prudente.
Corri logo para os braços dele
feita gata borralheira
à espera do beijo longo e fundo
como sempre acontecia nos contos de fadas.

Encantado e deslumbrado com o meu gesto
ficou de olhar explosivo
que lhe valeu o pulsar do meu peito
totalmente, em alvoroço
a rigidez dos meus seios redondinhos
prontinhos para o endoidar
a amplitude do encaixe do meu ventre
para o satisfazer e aninhar
em vaivéns originais e transcendentais
pais de orgasmos repetidos, tão únicos e seguidos.

Foi na cama dele, que eu comecei a atuar
por não me sentir naquele espaço
como profissional real em apreciação
mas como mulher muito desejada e amada.
Nós, de ritmo pronto e afinado,
melhor que qualquer orquestra ensaiada
com movimentos belos, melódicos
que de tanta simetria, o luar atrevido
invadiu-nos, sem dizer nada, assim à revelia.

Agora, de fogo ateado no olhar, incontrolado
fizemos a fusão sublime um no outro
bem conscientes e assumidos
partindo vivos e felizes para um paraíso
somente, por nós, merecido.
Ah, como eu ficaria contente e feliz
se todas experimentassem
esta indescritível e inexplicável sensação
que é abandonar um varão
para que se dê a união de facto
decididamente, de um corpo e de um coração.


CÉU

sexta-feira, 15 de maio de 2015

GUEIXA

Sou gueixa de lábios encarnados, doces, delicados
que dança à tua volta, graciosa, bailarina
num desejo colossal, que te domina e te alucina.
Audaciosamente elegante, bela, provocante
sou mistura boa de fada do lar com dama da cama
grandiosa, inteligente, exuberante, misteriosa, divina.

O meu encanto e sedução paralisam-te a mente 
perturbando e fragilizando o teu coração
que se agita e excita em arritmias contundentes.
Eu mando em ti, e tu, humilde, obedeces
aos meus caprichos, taras, feitiços, manias e vícios 
tendo nos lençóis, o prémio ou o castigo, que mereces.

Quero servir-te, pois pagaste um elevado preço
para me teres nos teus braços esfaimados
que se estendem, incontrolados e desmesurados.
Afogo-me na tua saliva, que se liga à minha
vendo o eclipse total, que se dá no céu da tua boca
que fica acesa e ao rubro, mais que erupção de vulcão!

Quero apreciar o animal impaciente, que há em ti
percorrendo a minha língua os teus recantos
mais que vivos, usados, treinados e bem apelativos.
Assim, ordeno que te reboles e te roces em mim
esfregando, apreciando, devorando tudo o que é meu
fazendo de mim gato sapato, mas de cristal e todo igual. 

Gosto do que é imoral, do que não se deve fazer e ter 
assim, abrir-me-ei para ti, de uma assentada
como corola libertando lava, onde irás enlouquecer.
Quero-te sem limites, hora combinada, sem lugar
desprovido de consciência, regras, mas com essência
cabendo-te, unicamente, uma tarefa, que não vou revelar.

Mostrar-te-ei o que este cetim oriental cobre e encobre
as minhas formas, onde nunca ninguém tocou
os sinais, jamais devassados, íntimos e guardados.
O teu corpo implora, e eu cedo de modo fatal
servindo-te de forma reservada, requintada e divinal
decerto meu senhor, meu dono, meu deus, e ponto final.


CÉU

sexta-feira, 8 de maio de 2015

FESTA

Não arranjemos pretextos para dizer não
pois os nossos desejos estão combinados e excitados
e tu queres tanto, mas tanto, e eu, também
que façamos, então, o que há muito desejamos.

Assim, pega-me pela boca e trava-me a língua
para que possas deambular pelo palato
céu, que agora já não é só meu, mas teu.
Depois de silenciada, parada e amordaçada
esmiúça os cantos e recantos desse espaço adocicado
escorrega, brinca, alisa os meus seios aguçados
de rosáceas alteradas, em pé de vento, alvoroçadas.

Eles são como figos escuros, um tanto maduros
que esperam trincadelas firmes, com dentes
incisivos, determinados, mas complacentes.
Estás, ainda, menos que a meio da caminhada
que, sem indicação, percorres tão sôfrego, cego e ledo
apalpando, tateando, acarinhando, sentindo já
o ventre que te espera e desespera, abrindo-se.
É malmequer branco, cujo botão se agita
em movimentos indescritíveis, que gritam
ao prazer que a tua língua lhe suscita e grita.

Sinto que queres a inversão dos sentidos
ao observar o teu corpo rijo, incontrolável, em reboliço
que espera, agora, a merecida recompensa
sem nada sussurrar, emitir, falar, pedir.
Usufruirás de subidas e descidas, rápidas e lentas
feitas por uns lábios encarnados, tímidos, ousados
para o dilúvio, nunca antes, profetizado.

Não encontrámos maneira de dizer não
porque às avessas, tresloucados, enleados e às cegas
bem hidratados, alimentados e sem pressas
fizemos de cada segundo, de um ápice, um mundo.
Jazemos vivos, anarquizando a cama
que se enfeita, se aconchega e espreita
esperneando, fazendo fita, para uma festa de entrega
que, será de arromba, pode estar certa.


CÉU

quinta-feira, 30 de abril de 2015

ENTRE O CÉU E A TERRA

A noite estava calada, escura, mas dada, de aptitude
que ainda atualmente não sei qual a longitude
onde estivemos os dois, em tempo desconcentrado
num cenário à sorte, e só por acaso, achado.
Que desafio! De um lado, tudo serra, do outro, rio
silencioso, entusiasmado, doce, experimentado
resvalando em leitos de ternura, ora minha, ora tua
que a tortura dos nossos fortes desejos atiçava e galgava.

O carro, um BM escuro, abriu os braços complacentes
enquanto eu, inconsciente e em morte cerebral
me finava naquela rude paisagem, que tanto odiava
que nada me dizia, pelo contrário, me fustigava.
Ao invés de mim, havia no teu olhar luz a transbordar
em delírios cientes, que agitavam a foz, premente 
ansiando pelos vaivéns com promiscuidade e virilidade
que te açoitavam a memória, a penetravam e ejaculavam.

Observaste-me, aparentemente, com paciência e avidez
analisando a consternação, que eu causei, talvez
esperando, porém, a satisfação dos anseios esperados
que te prometi em momentos transcendentais.
Não tinha por onde me safar, despertados os sentidos  
estes iriam ordenar empenho e cumprimento total
e dessa maneira e base, angariaste-me toda só para ti
prendendo-me, afagando-me, sustendo-me, afagando-me.

Deixei-me levar como as águas incontidas e desatadas
numa caravela de medos, de ventos e segredos
enfrentando todos os riscos, marés violentas, perigos 
não fosse ele arrombar o meu corpo, em bruto.
De nada valeu esta minha atitude, desgraçadamente
pois numa investida gananciosa e gesto abrupto
guardou-me, atou-me, enclausurou-me a sete chaves
no frenético e louco prazer do seu corpo, está bom de ver.

Os vidros das janelas do carro ficaram nulos e embaciados
tal como as minhas mãos suadas e afogueadas
de tanto massajarem o planalto do corpo dele, aluado
que parecia tarado, insaciável, descompensado.
O banco onde eu estava sentada, ficou vago e parvo
porque não compreendeu a minha fuga prevista
sem bússola, quadrante ou balestilha adequada, nada
que tudo lhe indicariam, com científica precisão e exatidão.

O banco do condutor metia tanto dó e pena, desgraçado
pois não sabia se aguentaria tamanha trepidação
com as voltas e reviravoltas de dois corpos esfaimados
num alheamento e cegueira abissal e paranormal.
Eu, por cima. Ótimo! Deste modo, já não via o cenário
que me desbotava o olhar e até mesmo o respirar
naquele ambiente, que não conhecia e que nada me dizia
mas, ao mesmo tempo, parecia-me apelativo e convidativo. 

Sem eu dar  por nada, fiz a  inversão  da minha posição
tendo agora que consolidar, o já conseguido
para que a confiança reinasse, decerto, e se instalasse
naquela magia, enlevo, desvelo e naquela sintonia.
O meu corpo, um templo, foi adorado e depois pilhado
de todas as roupagens, acessórios e miragens
e nem um átomo dos meus seios, a boca dele renegou
por os considerar altares sagrados, seus e não profanados.

Eu, agora, de estruturas descascadas e desanuviadas
esperava, aflita, as ferramentas apropriadas
para que fosse apreciada, invadida e entranhada
dando assim ocupação e satisfação, ao mentor da ação.
Furou o meu interior com a máquina dele, um primor
com frémito, impetuosidade e potencialidade
para cima e para baixo, para a frente e para trás 
despetalando-me, sem dó nem alma, desventrando-me.

Este meu estado permitiu a entrada na infraestrutura
que, de facto, ficou mais segura e sossegada
sem dizer ai nem ui, como se estivesse anestesiada
estando mais do que pronta, para a mistura.
Contudo, e como não querias aplicar, logo, a tinta
ficaste a mirar os sinais na minha pele madura
sobretudo um, ao canto da boca, ali nascido, doçura
que destravou o teu cérebro, pondo-se logo, aumentativo.

A tinta com  que irias  inundar, estava quase no ponto
e perante tanto envolvimento e arrebatamento
o óleo do teu motor, destrambelhado para se renovar
já não foi capaz de se fazer estancar e de parar.
Alagada, inundada em quantidade, odor e qualidade
fiquei assustadíssima com tamanha chuvada
que, às golfadas, encharcaram a minha flor altruísta
dando à pintura, matizes e texturas  de aspeto surrealista.

Tenho de dizer-te, de confessar-te, que fiquei desiludida
com o teu (a)normal e procedimento egoísta
pois nem esperaste por mim na tremenda desfilada
que queria regrada, serena, atenta e atempada.
Todavia, que poderia eu fazer, como deveria proceder
num ermo daqueles, tão longínquo e deserto
entre o céu e a terra, afastada de tudo e do mundo
sem nada poder dizer, executar, tomar posição e decisão. 

Não liguem nada ao que eu digo, pois estive num paraíso
ouvindo palavras físicas, excitantes, sensoriais 
falando a linguagem dos amantes, lânguida, devassa
que, não vos consigo transmitir, nem proferir
pois a dimensão da paixão, é aliciante, pura, vivificante.
Enquanto isto, ele idolatrava-me, absolutamente
esquecendo e abolindo tudo o que aqui tinha aprendido
fazendo de mim a mulher única, a mulher mais feliz
 a sua musa, a sua ninfa, meretriz, deusa, a sua imperatriz.


CÉU

domingo, 19 de abril de 2015

NUA

Retirei todos os acessórios que podiam complicar e atrapalhar.
O colar comprido, de um branco madre pérola, um espanto
as argolas cintilantes, em forma de coração, palpitantes
o gancho do cabelo, com uma rosinha rubra, a provocar
a lingerie já estudada, graciosa, prudente, complacente
e por fim, os sapatos negros, audaciosos, de puro cetim
libertando os meus pés, prontinhos para te enredar  
neste abraço, neste laço, neste transbordar de mim.

Nua.
Eu, soberbamente, nua.
Despojada de tudo, assim, na frente dos teus olhos cobiçosos
que de tão aguados, ficaram cinzentos, turvos, desbotados
perdendo de todo a cor primeira, o brilho, abençoada cegueira.

Nua.
Eu, totalmente, nua.
Desamparada do vestido vermelho, que tinhas rasgado, por inteiro
fiquei, como vim ao mundo, virgem, esperada, linda, idolatrada
desprovida de truques de motivação, magia, mistério e sedução.
Olhei-te e fitei-te, compenetrada, como serpente em ação
e caminhei até ti, arrastando-me e bamboleando-me, felina
como gata em telhado de zinco quente, divina, experiente.

Nua.
Eu, provocantemente, nua. 
Fornecida com o meu corpo, na tua frente, bem à mão de semear
mas as tuas mãos ávidas, pareciam não chegar e não bastar
para tamanho feito, que te enriquecia e enlouquecia.

Nua.
Eu, apetitosamente, nua.
Exclusiva, misteriosa, exótica, floresta amazónica para desbravar
repleta de feitiços, artimanhas, pássaros aflitos e tiques castiços 
que emolduravam a pintura da minha fúria, a estrebuchar
de olhos permissivos, ledos, surdos, cegos, mudos, passivos
de sentidos já quase perdidos, na imensidão da dádiva
entregando-me sem sequer questionar, sob o teu corpo, tua.
Assola-me, então, uma questão, desculpa, mas que te devo colocar.
Amor, o que fazes tu de mim, entre idas, paragens, vindas
entre carícias, jogos, descobertas, plenitudes mais que certas
o que fazes tu com o meu corpo, entre um orgasmo e outro?


CÉU

ACORDE, PARA O ACORDO!

ACORDE, PARA O ACORDO!

NOTA

ESTE BLOGUE FOI CRIADO A 14 DE FEVEREIRO DE 2015

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